Construção civil perde fôlego, mas mercado de imóveis continua aquecido: o que esperar de 2026 e 2027 ?

Vendas crescem, lançamentos recuam e juros altos colocam o setor diante de um cenário de forte contraste
A construção civil brasileira entrou em uma fase curiosa em 2026. De um lado, o mercado imobiliário continua vendendo. Do outro, os lançamentos começam a perder força e os juros elevados aumentam a preocupação das empresas.
Os números mais recentes da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mostram que as vendas de imóveis novos cresceram 5,3% no segundo trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado. Foram 113.676 unidades comercializadas em 221 cidades.
No acumulado do primeiro semestre, as vendas chegaram a 226.536 unidades, alta de 5,4% em relação ao primeiro semestre de 2025. (Folha de S.Paulo)
Mas há um sinal amarelo: os lançamentos recuaram 1,3% em um ano.
Ou seja, o brasileiro continua comprando, mas as construtoras estão colocando menos imóveis novos no mercado.
O Minha Casa, Minha Vida virou protagonista
Uma das principais explicações para a resistência do setor está no Minha Casa, Minha Vida.
O programa respondeu por 58% dos lançamentos no segundo trimestre, a maior participação desde o início da série histórica, em 2019. O segmento também ganhou espaço nas vendas, enquanto os imóveis destinados às faixas de renda mais altas enfrentaram mais dificuldades. (Folha de S.Paulo)
Isso mostra que o mercado não está exatamente esfriando de maneira uniforme.
O imóvel popular continua puxando o setor, enquanto o mercado de médio e alto padrão sente mais o peso dos juros.
O problema atende pelo nome de Selic
A taxa básica de juros está em 14% ao ano, e esse é hoje o principal obstáculo apontado pelos empresários da construção.
Uma sondagem da CNI em parceria com a CBIC mostrou que 36,2% dos empresários apontaram os juros elevados como o principal problema do setor, à frente da carga tributária, citada por 33%, e da falta ou alto custo de trabalhadores qualificados, com 28%. (Forbes Brasil)
E existe outro dado que chama atenção: o Índice de Confiança da Construção chegou a 92,3 pontos em julho, com melhora nas edificações residenciais, mas as expectativas para atividade e investimentos continuam pressionadas. (Forbes Brasil)
E 2027?
É justamente aqui que o cenário fica mais delicado.
A expectativa é de que o setor continue dependendo fortemente do crédito habitacional, dos investimentos em infraestrutura e dos programas de habitação popular. Ao mesmo tempo, a construção terá de enfrentar um ambiente econômico de crescimento mais lento.
A própria CBIC havia projetado, em maio, crescimento de 1,2% para o PIB da construção em 2026, após avanço de 0,5% em 2025. (CBIC)
Para 2027, ainda existe uma incógnita importante: o novo modelo de financiamento imobiliário, com maior participação de recursos do mercado financeiro e das LCIs, deverá entrar plenamente em funcionamento. A mudança pode abrir espaço para mais crédito, mas os juros continuarão sendo decisivos. (Folha de S.Paulo)
Enquanto isso, o mercado financeiro prevê uma economia brasileira crescendo apenas 1,50% em 2027, segundo o Boletim Focus mais recente. (Folha de S.Paulo)
O setor está aquecido ou desacelerando?
A resposta mais honesta é: os dois.
As vendas mostram que existe demanda. O estoque caiu e o tempo estimado para vender os imóveis disponíveis chegou a 9,5 meses.
Mas os lançamentos recuaram e o crédito continua caro.
Isso significa que a construção civil brasileira não está diante de uma crise, mas de uma mudança de ritmo.
O grande teste para 2027 será descobrir se a demanda continuará forte quando o crédito depender menos dos programas habitacionais e mais das condições normais do mercado.
Por enquanto, o recado dos números é claro:
o brasileiro ainda quer comprar imóvel. O problema é descobrir até quando ele conseguirá pagar por ele.

















