Eleições

Flávio deixa o Brasil após ter passaporte cassado por Moraes — apoiadores chama de ‘exílio político’ para não virar moeda de troca no Congresso

Passaporte cassado, fuga consumada: a saída de Flávio Bolsonaro e a aposta da direita contra a "moeda de troca" de Moraes

Brasília — O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teve sua saída do Brasil para os Estados Unidos confirmada nesta terça-feira, após descumprir a ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para entregar seu passaporte em 24 horas. Aliados da direita rapidamente classificaram o ato como “exílio político”, alegando que o objetivo é evitar que Flávio seja usado por Moraes como “refém” ou “moeda de troca” nas negociações com o Congresso — especialmente diante da posse do novo Legislativo em 27 de novembro, quando a direita e o centro deverão formar maioria em ambas as casas.

A ordem do passaporte e a linha do tempo da saída

O estopim do episódio foi a divulgação do resultado eleitoral no domingo (25). Segundo diversos veículos da imprensa brasileira, a Polícia Federal apresentou naquele mesmo dia um pedido a Moraes afirmando haver “risco concreto de fuga para o exterior” e solicitando a apreensão do passaporte de Flávio. A PF citou como “precedentes concretos” o fato de o amigo e investigado no mesmo inquérito, o advogado Willer Tomaz, estar nos Estados Unidos desde 25 de agosto sem retornar, e de o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, supostamente já ter estruturado uma residência de longa duração nos EUA. Moraes acolheu o pedido, determinando o cancelamento do passaporte brasileiro de Flávio e a entrega de documentos de outras nacionalidades.

Na segunda-feira (26), ao deixar a residência do pai em Brasília, Flávio foi notificado em flagrante pela PF de que deveria entregar os documentos em 24 horas. Ele publicou então um vídeo nas redes sociais negando a intenção de deixar o país, classificando a medida como “evidente tentativa de intimidação” e prometendo entregar o passaporte. No entanto, após o prazo expirar na manhã de terça-feira (27), a PF confirmou não ter recebido o documento e anunciou o cancelamento do registro. Segundo a CNN Brasil, Flávio utilizou o passaporte italiano para deixar o país, acompanhado da esposa e das duas filhas. O Departamento de Estado dos EUA confirmou a concessão de vistos a Flávio e à família.

A narrativa da direita: evitar que “Moraes use pessoas como moeda de troca”

Após a saída de Flávio, seus aliados de direita rapidamente unificaram o discurso, interpretando o ato como necessário para preservar sua utilidade política, e não como mera evasão judicial.

O deputado Carlos Jordy (PL-RJ) escreveu explicitamente na plataforma X: “Confirmado! Flávio Bolsonaro foi para os EUA para não ser usado como moeda de troca contra o impeachment de Moraes.” O vice-líder da oposição na Câmara, Mauricio Marcon (PL-RS), aprofundou a lógica: a estratégia de Moraes seria “colocar Flávio no bolso”, pressionando senadores a garantir que a presidência do Senado fique com Davi Alcolumbre, bloqueando assim o início do processo de impeachment contra o ministro. Marcon afirmou que “Flávio conseguiu sair e frustrou esse plano”. O deputado Gustavo Gayer (PL-GO) foi direto: Flávio “fez o que tinha que fazer”, caso contrário seria “preso e usado como ferramenta de barganha no Senado”.

A premissa central dessa narrativa é a mudança no equilíbrio de poder no Congresso. Segundo o resultado eleitoral, o PL — partido de Bolsonaro — será a maior bancada em ambas as casas: 121 deputados na Câmara e 28 senadores no Senado. Somando o Novo e parte dos aliados de centro, a direita terá influência significativa nas duas casas. Aliados argumentam que, se Flávio permanecesse no país e fosse preso, Moraes poderia usá-lo como moeda de troca com senadores de direita dispostos a impulsionar o impeachment.

Posição oficial e desdobramentos

A defesa de Flávio não se manifestou até o fechamento desta edição. Seu coordenador de campanha, Rogério Marinho, inicialmente se recusou a confirmar ou negar, dizendo apenas que o partido não havia sido notificado. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, divulgou nota na segunda-feira reconhecendo a vitória de Lula nas eleições, mas sem mencionar a situação de Flávio.

Moraes ainda não adotou novas medidas judiciais após a confirmação da saída. Como não há mandado de prisão, Flávio não é legalmente considerado “foragido”, mas seu passaporte foi cancelado — se tentar usar documentos brasileiros para entrar em outro país, um alerta será disparado. O mandato de senador de Flávio termina em 31 de janeiro de 2027, quando ele perderá o foro privilegiado.

Análise: A saída de Flávio leva o confronto entre a família Bolsonaro e o sistema judiciário brasileiro a uma nova fase. Diferentemente do caminho do pai, Jair Bolsonaro, que foi aos EUA após a derrota em 2022, mas acabou retornando para responder a processos, Flávio enfrenta um novo Congresso dominado pela direita. A narrativa do “combate à moeda de troca” funciona, na prática, como justificativa para uma estratégia política: eliminar a “carta” nas mãos de Moraes por meio de um “autoexílio” calculado, preservando ao mesmo tempo o espaço de Flávio como líder espiritual da direita no exterior. No entanto, isso também significa abrir mão da coordenação direta da agenda de impeachment dentro do Congresso. Para a maioria de direita que toma posse em breve, a ausência de Flávio pode significar a perda de um articulador crucial caso a prioridade seja o impeachment de Moraes, e não o uso da vantagem numérica para negociar a agenda legislativa com o governo Lula.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo