Política

Lula avalia nomear Pierpaolo Bottini para o Ministério da Justiça

Criminalista foi advogado de Daniel Vorcaro no início do escândalo do Banco Master e deixou a defesa em março, antes da delação premiada do banqueiro; nome é visto como aposta para reforma do Judiciário e possível vaga no STF

Brasília — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cogita nomear o advogado criminalista Pierpaolo Bottini para o comando do Ministério da Justiça no próximo governo, apurou a CNN Brasil . Um dos nomes mais conhecidos do direito penal brasileiro, Bottini atuou como consultor jurídico da campanha à reeleição de Lula e é visto por interlocutores do presidente como um quadro de peso para a pasta.‌

A eventual escolha, porém, carrega um elemento sensível: Bottini foi o advogado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no período em que o caso estourou. Ele deixou a defesa do banqueiro em março de 2026, alegando “motivos pessoais”, pouco antes de Vorcaro trocar de advogado e sinalizar que negociaria uma delação premiada .‌‌

Quem é Bottini

Professor de Direito Penal na Universidade de São Paulo (USP), Bottini ocupou a Secretaria de Reforma do Judiciário durante o primeiro governo Lula, entre 2005 e 2007, período em que foram conduzidos os debates que resultaram na Emenda Constitucional nº 45, que criou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) . Ele também foi sócio-fundador do escritório Bottini & Tamasauskas Advogados e atuou na defesa de diversos acusados na Operação Lava Jato.‌‌

Segundo a CNN, a consideração de seu nome atende a ao menos quatro objetivos do presidente: ter na pasta um nome de peso no direito, com papel semelhante ao que Marcio Thomaz Bastos desempenhou no primeiro mandato; contar com alguém de força política para tentar controlar a Polícia Federal; ter um interlocutor para liderar a reforma do Judiciário; e preparar um possível futuro indicado ao Supremo Tribunal Federal, uma vez que Lula terá três vagas a preencher entre 2028 e 2030 .‌

A saída do caso Master

A controvérsia em torno de seu nome decorre diretamente de sua atuação no caso Banco Master. Bottini defendia Vorcaro quando o escândalo veio à tona, em novembro de 2025, após o Banco Central determinar a liquidação extrajudicial da instituição .‌

Em março de 2026, porém, ele deixou a defesa. O Estadão noticiou que Bottini era contrário a um acordo de delação premiada e que, após a Segunda Turma do STF manter a prisão preventiva de Vorcaro, o banqueiro decidiu trocar a equipe de defesa para viabilizar a colaboração . O novo advogado, José Luís de Oliveira Lima, tem histórico de negociações de delação de grande repercussão.‌

A reportagem apurou que a saída de Bottini também foi motivada por uma questão de conflito de interesses: ele defendia simultaneamente diversos políticos do Centrão, e a delação de Vorcaro poderia implicar esses mesmos clientes.

A agenda de Vorcaro

O caso Master ganhou contornos políticos amplos após a divulgação de que a agenda telefônica de Vorcaro incluía contatos de integrantes dos três Poderes. A Folha de S.Paulo obteve o material da quebra de sigilo telefônico entregue à Polícia Federal, que listava nomes como os ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o presidente da Câmara, Hugo Motta, além do ex-ministro José Dirceu e do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo .‌

Vorcaro também foi recebido por Lula no Palácio do Planalto em dezembro de 2024, fora da agenda oficial. O encontro foi articulado pelo ex-ministro Guido Mantega, que prestava consultoria ao Banco Master. Lula confirmou a reunião e afirmou que o banqueiro lhe relatou estar sofrendo “perseguição” .‌

Até o momento, não há conclusão judicial que atribua crime a qualquer um dos contatos registrados na agenda de Vorcaro. A delação premiada do banqueiro, cuja negociação segue em curso, é apontada como o elemento que pode esclarecer o teor e a natureza dessas relações .‌

O que está em jogo

A nomeação de Bottini para a Justiça ocorre em um momento de reestruturação da pasta. Lula estuda desmembrar o ministério e criar uma pasta separada de Segurança Pública . O atual ministro, Wellington Silva, é visto como tendo perdido força em disputas internas do órgão.

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