Alexandre de Moraes: da chegada ao STF à crise que coloca o próprio ministro sob investigação
De indicado por Michel Temer a protagonista de alguns dos episódios mais tensos da política brasileira, Moraes chega ao centro de uma crise que agora envolve o próprio STF.

De indicado por Michel Temer a um dos ministros mais poderosos e controversos do país: relembre os principais acontecimentos que marcaram a trajetória de Alexandre de Moraes até a sessão histórica desta terça-feira (15)
Poucos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) conseguiram ocupar, ao mesmo tempo, um espaço tão central na política brasileira e provocar tamanha divisão de opiniões quanto Alexandre de Moraes.
Para seus defensores, Moraes teve papel decisivo na defesa das instituições democráticas diante de ataques ao Supremo, às eleições e ao Estado de Direito. Para seus críticos, principalmente setores ligados à direita e ao bolsonarismo, o ministro acumulou poderes excessivos, adotou decisões consideradas controversas e passou a atuar em processos nos quais seria, ao mesmo tempo, investigador, acusador e julgador.
Agora, quase dez anos depois de chegar à Corte, Moraes enfrenta talvez o momento mais delicado de sua trajetória.
Nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026, o STF realiza uma sessão extraordinária para analisar se deve ser aberta uma investigação contra o próprio ministro, a partir de um relatório da Polícia Federal que reúne mensagens, encontros e relações financeiras envolvendo Moraes, o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
A abertura de uma investigação, caso seja aprovada, não significa que Moraes seja culpado de qualquer crime. Significa que os elementos apresentados serão formalmente apurados.
A sessão é considerada inédita justamente porque o Supremo precisa decidir como proceder diante de suspeitas envolvendo um de seus próprios integrantes.
2017: Alexandre de Moraes chega ao Supremo
Alexandre de Moraes nasceu em São Paulo, em 13 de dezembro de 1968. Antes de chegar ao STF, construiu uma carreira que passou pelo Ministério Público de São Paulo, pela área acadêmica e pela administração pública.
Sua trajetória política ganhou maior projeção durante o governo de Michel Temer.
Moraes foi secretário de Segurança Pública de São Paulo e, posteriormente, ministro da Justiça e Segurança Pública no governo Temer.
Em fevereiro de 2017, Temer indicou seu nome para ocupar a vaga deixada pelo ministro Teori Zavascki, morto em um acidente aéreo.
O Senado aprovou a indicação por 55 votos a 13.
Moraes tomou posse no STF em 22 de março de 2017.
Naquele momento, poucos imaginavam que o novo ministro se transformaria, nos anos seguintes, em uma das figuras mais importantes — e também mais atacadas — da política brasileira.
2019: começa o capítulo que mudaria sua trajetória
Dois anos depois de chegar ao STF, Moraes assumiu a relatoria do chamado Inquérito das Fake News, instaurado em 2019 pelo então presidente da Corte, Dias Toffoli.
O objetivo inicial era investigar ameaças, notícias falsas e ataques contra ministros do Supremo.
O inquérito rapidamente ganhou dimensão muito maior.
Ao longo dos anos, passou a alcançar investigações envolvendo redes sociais, financiamento e divulgação de conteúdos considerados ataques às instituições democráticas.
A condução do processo provocou críticas de juristas, políticos, entidades e setores da imprensa, principalmente por questões relacionadas ao sigilo, à forma de instauração e à concentração de poderes na condução das investigações.
Para os apoiadores de Moraes, entretanto, aquele trabalho foi fundamental para impedir que campanhas de desinformação e ataques coordenados contra as instituições ganhassem força.
2022: Moraes assume o comando do TSE
O protagonismo de Moraes aumentou ainda mais durante as eleições presidenciais de 2022.
Como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele comandou a Justiça Eleitoral durante uma das eleições mais polarizadas da história recente do país.
A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro transformou Moraes em um dos principais alvos dos ataques de apoiadores do então presidente.
Depois da eleição, Bolsonaro e seus aliados passaram a questionar decisões da Justiça Eleitoral e o resultado das urnas.
Moraes, por sua vez, adotou uma postura rigorosa contra o que considerava ataques ao processo eleitoral e às instituições.
A partir dali, a relação entre Moraes e o grupo político de Bolsonaro se deteriorou ainda mais.
8 de janeiro de 2023: o ponto de virada
Se existe uma data que pode ser considerada o grande divisor de águas na trajetória pública de Alexandre de Moraes, é 8 de janeiro de 2023.
Naquele domingo, milhares de manifestantes invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, em Brasília.
Moraes passou a ocupar posição central nas investigações e nos processos relacionados aos ataques.
O ministro recebeu milhares de processos relacionados aos atos e proferiu decisões envolvendo prisões, medidas cautelares e posteriormente ações penais.
Segundo dados divulgados pelo próprio STF, os acontecimentos de 8 de janeiro geraram 1.516 processos no gabinete de Moraes, mais de 8 mil decisões e centenas de julgamentos.
Para seus apoiadores, foi nesse período que Moraes se consolidou como uma espécie de linha de frente do Supremo na defesa da democracia.
Para seus críticos, o episódio marcou o início de uma fase em que o ministro passou a concentrar poderes considerados excessivos.
Foi também quando a figura de Moraes deixou definitivamente de ser apenas a de um ministro do Supremo e passou a ocupar o centro do debate político nacional.
2023 a 2024: a escalada das críticas
Com o avanço das investigações relacionadas ao 8 de Janeiro, a tensão entre Moraes e o campo bolsonarista aumentou.
Vieram novas operações, prisões, decisões sobre redes sociais e investigações envolvendo aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
As críticas também começaram a ultrapassar o campo político brasileiro.
Em 2024, o bilionário Elon Musk entrou diretamente no confronto com Moraes.
Musk passou a questionar publicamente decisões do ministro relacionadas ao bloqueio de perfis na plataforma X, então Twitter.
O conflito aumentou até que Moraes determinou, em agosto de 2024, a suspensão do X no Brasil após a empresa não cumprir determinações judiciais e não manter representante legal no país.
A plataforma voltou a funcionar em outubro, depois do cumprimento das exigências determinadas pela Justiça e do pagamento das multas.
O episódio transformou Moraes em uma figura conhecida também fora do Brasil e alimentou a discussão internacional sobre os limites entre combate à desinformação, liberdade de expressão e atuação do Judiciário.
2024: outra frente de controvérsia
Ainda em 2024, reportagens levantaram questionamentos sobre a utilização de estruturas do Tribunal Superior Eleitoral para produzir relatórios utilizados em investigações conduzidas por Moraes no STF.
O episódio ficou conhecido como uma das principais controvérsias envolvendo a atuação do ministro e gerou debate sobre os limites entre as funções do TSE e do Supremo.
Moraes e seus defensores sustentaram que as medidas estavam relacionadas ao combate a ataques contra as instituições e à proteção do processo eleitoral.
2025: a investigação sobre a trama golpista chega ao STF
As investigações sobre a tentativa de golpe de Estado avançaram e colocaram novamente Moraes no centro do processo.
Como relator, ele participou da condução de um dos casos mais importantes da história recente do Supremo.
Em 2025, o STF passou a condenar integrantes dos núcleos da chamada trama golpista.
A atuação de Moraes fez com que ele se tornasse ainda mais identificado, tanto por apoiadores quanto por opositores, com o processo que envolveu Jair Bolsonaro e seus aliados.
Para seus críticos, isso reforçou a percepção de que o ministro havia se tornado um dos principais adversários jurídicos do bolsonarismo.
Para seus apoiadores, a atuação representava a responsabilização de pessoas envolvidas em uma tentativa de ruptura institucional.
2026: a crise muda de direção
Durante anos, as principais acusações contra Moraes vinham de fora do STF.
Em 2026, entretanto, a situação mudou.
A crise passou a ocorrer dentro do próprio Supremo.
O nome que aparece no centro da nova crise é o do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
A Polícia Federal produziu um relatório a partir de materiais apreendidos nas investigações envolvendo o banco.
Entre os documentos estão mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes, registros de encontros e informações relacionadas a contratos entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
Segundo o relatório divulgado, existem mensagens nas quais Vorcaro teria buscado auxílio de Moraes em assuntos relacionados às investigações contra o banco.
Também foram apontados contratos milionários entre o banco e o escritório da esposa do ministro.
Moraes nega irregularidades.
Em manifestação encaminhada ao presidente do STF, Edson Fachin, afirmou que o relatório representa uma “farsa” e uma tentativa de vingança política de aliados de pessoas condenadas pela trama golpista.
O ministro também afirmou que não existe qualquer indício de prática ilícita de sua parte nos milhares de documentos analisados.
Setembro de 2026: a crise chega ao limite
A divulgação dos documentos provocou um confronto interno entre Moraes e o ministro André Mendonça.
Mendonça, indicado ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, estava à frente de processos relacionados ao caso Banco Master.
Foi ele quem autorizou a divulgação de parte dos documentos que continham as mensagens envolvendo Vorcaro e Moraes.
Moraes reagiu e acusou Mendonça de abuso de autoridade.
A crise se aprofundou nos dias seguintes, envolvendo também a Polícia Federal e decisões conflitantes entre integrantes do Supremo.
Diante da escalada, o presidente do STF, Edson Fachin, interveio e assumiu a condução do caso relacionado às acusações contra Moraes.
O que pesa contra Moraes?
O relatório da Polícia Federal reúne diferentes elementos.
Entre eles estão:
- mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes;
- registros de encontros entre os dois;
- pedidos feitos pelo empresário relacionados a autoridades e investigações;
- contratos milionários entre o Banco Master e o escritório da esposa de Moraes;
- informações sobre alterações em contratos;
- referências a aeronaves e outros negócios;
- questionamentos sobre possíveis contatos relacionados ao Banco Central;
- participação ou influência em eventos jurídicos patrocinados pelo empresário.
Um dos pontos que mais chamou atenção foi uma mensagem enviada por Vorcaro pouco antes de sua prisão, na qual o empresário teria perguntado a Moraes se deveria deixar o país.
Em outra situação, segundo os documentos, Vorcaro teria pedido que Moraes intercedesse junto ao diretor-geral da Polícia Federal e ao procurador-geral da República.
Esses elementos, porém, são objeto de questionamento e apuração. Eles não equivalem, por si só, a uma condenação ou prova definitiva de crime.
E o contrato de R$ 131 milhões?
Outro ponto central da crise envolve o escritório da esposa de Moraes.
Segundo documentos analisados pela Polícia Federal, o Banco Master manteve contratos de valores elevados com o escritório de Viviane Barci de Moraes.
Um dos contratos mencionados nas investigações chegou a R$ 131 milhões.
O relatório também aponta que Moraes teria participado da edição de contratos relacionados ao banco.
O ministro nega irregularidades e afirma que nunca julgou processos relacionados ao Banco Master ou a Vorcaro.
15 de setembro de 2026: o dia decisivo
É nesse ponto que a história chega ao momento atual.
Nesta terça-feira, o plenário do STF analisa se deve autorizar a abertura de uma investigação contra Alexandre de Moraes.
O relator é o presidente da Corte, Edson Fachin.
A discussão não significa que o STF esteja julgando Moraes como culpado.
O que está em jogo é se os elementos reunidos justificam a abertura de uma investigação formal.
É uma situação excepcional: um tribunal formado para julgar passa a discutir a possibilidade de investigar um de seus próprios ministros.
A sessão ocorre em meio a uma forte divisão interna no Supremo e a poucas semanas das eleições presidenciais de 2026, o que aumenta ainda mais o peso político do episódio.
A maior desavença de Moraes
Ao longo de sua trajetória no STF, Moraes acumulou confrontos com diferentes grupos e personagens.
Mas nenhum deles teve o peso político da relação com o bolsonarismo.
A partir das eleições de 2022 e, principalmente, depois dos atos de 8 de janeiro, Moraes passou a ser visto por boa parte da direita como o principal símbolo do que seus críticos classificam como excesso de poder do Judiciário.
Do outro lado, setores da esquerda e defensores das instituições passaram a enxergá-lo como uma das figuras que mais resistiram às tentativas de enfraquecimento do sistema democrático.
Essa polarização explica por que praticamente qualquer decisão envolvendo Moraes provoca reações tão intensas.
Ele deixou de ser apenas um ministro.
Tornou-se um personagem político, embora constitucionalmente continue exercendo uma função judicial.
Uma década que mudou o personagem
Quando Alexandre de Moraes tomou posse no STF, em 2017, era mais um nome entre os 11 ministros da Corte.
Hoje, quase dez anos depois, seu nome está associado a alguns dos episódios mais importantes e controversos da história recente do Brasil: o Inquérito das Fake News, as eleições de 2022, o 8 de Janeiro, as investigações contra Bolsonaro e seus aliados, o confronto com Elon Musk, o bloqueio do X e, agora, a crise envolvendo o Banco Master.
A trajetória mostra uma transformação curiosa.
Quanto maior se tornou o poder institucional de Moraes, maior também se tornou a resistência contra sua atuação.
E o episódio desta terça-feira pode representar um novo capítulo dessa história.
Pela primeira vez, a discussão não é sobre uma decisão tomada por Moraes contra seus adversários.
É sobre o próprio ministro e se existem elementos suficientes para que ele seja formalmente investigado.
O resultado da sessão poderá ter consequências não apenas para Alexandre de Moraes, mas para a própria imagem do Supremo Tribunal Federal e para a relação entre Judiciário, política e sociedade brasileira.
O que acontece agora?
Independentemente do resultado da sessão, o caso ainda terá novos capítulos.
Se a investigação for autorizada, será necessário definir seu alcance e quais fatos serão efetivamente apurados.
Se for rejeitada, a discussão política sobre os elementos apresentados provavelmente continuará.
E, em qualquer dos cenários, uma coisa já mudou:
Alexandre de Moraes, que durante anos esteve na posição de investigar e julgar casos que atingiam poderosos, agora se vê no centro de uma discussão em que o próprio STF precisa decidir se deve investigá-lo.
É mais um capítulo de uma trajetória que começou em março de 2017, quando um novo ministro chegou ao Supremo, e que hoje coloca a própria Corte diante de um dos seus maiores testes institucionais.
















